Em um cenário de mudanças tarifárias e disputas comerciais, acompanhar as decisões internacionais deixou de ser uma tarefa exclusiva de grandes multinacionais. Para empresas brasileiras que importam, entender como tarifas, NCM, origem e acordos comerciais podem afetar uma operação é parte essencial do planejamento.
Uma importação começa muito antes de a mercadoria embarcar e termina muito depois de ela chegar ao porto. Entre esses dois pontos existe uma série de decisões que pode influenciar diretamente o custo final de uma operação.
Uma delas é a política tarifária internacional.
Nos últimos anos, mudanças nas relações comerciais entre grandes economias, novas barreiras e disputas tarifárias passaram a ocupar espaço importante no comércio mundial. Em 2026, esse movimento ganhou ainda mais força, com novas medidas comerciais dos Estados Unidos envolvendo produtos brasileiros e outros parceiros.
Para quem atua com comércio exterior, a mensagem é clara: uma mudança tarifária em outro país pode alterar preços, fornecedores, rotas e decisões de compra em diferentes mercados.
De forma simplificada, tarifas são tributos ou sobretaxas aplicados sobre mercadorias comercializadas entre países.
Cada governo pode estabelecer suas próprias regras de importação, considerando fatores como proteção da indústria nacional, política comercial, acordos internacionais, segurança econômica ou resposta a medidas adotadas por outros países.
Essas decisões podem afetar diretamente o preço de determinados produtos.
Imagine uma empresa brasileira que compra determinado insumo de um fornecedor estrangeiro. Se o país de origem passa a sofrer uma sobretaxa para exportar aquele produto a determinado mercado, o fornecedor pode ter seus custos alterados. Isso pode modificar preços, disponibilidade e até a competitividade daquela cadeia de fornecimento.
Por isso, tarifas internacionais não são apenas uma questão diplomática ou política. Elas podem se transformar em uma variável econômica para empresas que importam.
O ambiente comercial internacional está particularmente dinâmico.
Em julho de 2026, os Estados Unidos anunciaram novas sobretaxas sobre parcelas das exportações brasileiras. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), duas medidas estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre determinados produtos brasileiros.
As medidas não atingem todos os produtos da mesma maneira. O próprio MDIC informou que aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando a base de comércio de 2024, estavam alcançadas pelas novas sobretaxas, enquanto outros produtos permaneciam fora dessas medidas adicionais.
Em alguns casos, as sobretaxas podem se acumular, chegando a 37,5% para determinados produtos.
Esse cenário demonstra como uma alteração na política comercial de uma grande economia pode criar impactos em cadeias produtivas inteiras.
E existe uma consequência indireta importante: quando um mercado fica mais caro ou mais difícil de acessar, empresas podem buscar novos fornecedores, novos destinos ou novas rotas comerciais.
É importante fazer uma distinção.
Uma tarifa aplicada pelos Estados Unidos sobre um produto brasileiro, por exemplo, não significa automaticamente que a mesma tarifa será cobrada na importação daquele produto pelo Brasil.
As tarifas de importação brasileiras seguem as regras brasileiras, incluindo a classificação fiscal da mercadoria, a NCM, a Tarifa Externa Comum (TEC), regimes especiais, quotas, acordos comerciais e outras condições aplicáveis.
O impacto pode acontecer de maneira direta ou indireta.
Diretamente, uma alteração na tarifa brasileira pode aumentar o imposto de importação de determinado produto.
Indiretamente, mudanças tarifárias em outros países podem modificar o preço internacional, a disponibilidade de mercadorias, a origem dos produtos e as estratégias dos fornecedores.
É justamente por isso que acompanhar o cenário internacional é tão importante.
Para quem importa, a NCM — Nomenclatura Comum do Mercosul é uma das informações mais importantes da operação.
A classificação correta determina, entre outros elementos, qual tratamento tarifário será aplicado à mercadoria.
O MDIC mantém um Painel Tarifário que permite consultar as informações tarifárias vigentes no Brasil a partir da NCM ou de palavras-chave. A ferramenta também apresenta informações relacionadas a exceções, quotas, Ex-tarifários e acordos comerciais.
Isso mostra por que não basta conhecer apenas o preço negociado com o fornecedor.
Antes de fechar uma compra internacional, é importante saber como aquela mercadoria será tributada quando entrar no Brasil.
Uma diferença na classificação pode alterar significativamente o custo da operação.
Quando uma empresa calcula o custo de uma importação, é comum olhar primeiro para o preço do produto.
Mas o valor final envolve diversas outras variáveis.
Entre elas estão:
Além disso, determinadas mercadorias podem estar sujeitas a medidas específicas, como quotas tarifárias, medidas de defesa comercial ou regimes especiais.
Por isso, o menor preço de compra nem sempre representa o menor custo de importação.
Uma mercadoria mais barata pode acabar sendo menos competitiva quando todos os custos envolvidos são considerados.
Imagine uma empresa brasileira que depende de um único fornecedor internacional para determinado componente.
Se uma mudança tarifária ou regulatória aumentar significativamente o custo daquela cadeia, a empresa pode precisar buscar alternativas.
Nesse contexto, a diversificação de fornecedores pode ser uma estratégia importante.
Avaliar fornecedores de diferentes países permite comparar não apenas preços, mas também:
tarifas + frete + prazo + câmbio + qualidade + riscos + estabilidade da cadeia.
Essa visão mais ampla pode ajudar a empresa a tomar decisões melhores diante de um cenário internacional instável.
Outro ponto que merece atenção são os acordos comerciais.
Dependendo da origem e das características do produto, determinadas operações podem se beneficiar de condições tarifárias específicas.
Por isso, antes de importar, é importante verificar se existe algum acordo aplicável à operação e quais requisitos precisam ser cumpridos para utilização do benefício.
Origem da mercadoria, documentação e classificação fiscal podem ser determinantes.
Mais uma vez, o planejamento antes do embarque pode fazer diferença no resultado financeiro da operação.
As tarifas internacionais não são estáticas.
Podem ser alteradas por decisões governamentais, acordos, investigações comerciais, medidas de defesa comercial ou mudanças nas relações entre países.
Em agosto de 2026, por exemplo, Brasil e Estados Unidos sinalizaram a retomada das negociações sobre as tarifas aplicadas às exportações brasileiras, após uma conversa entre os presidentes dos dois países. O MDIC informou que representantes brasileiros e norte-americanos deverão retomar as discussões.
Isso significa que uma informação válida hoje pode mudar amanhã.
Para empresas que atuam com comércio exterior, acompanhar notícias e atos oficiais não é apenas uma questão de atualização. Pode representar uma oportunidade de antecipar decisões.
Não é possível controlar as decisões comerciais de outros países. Mas é possível melhorar a capacidade da empresa de reagir a elas.
Algumas práticas podem ajudar:
1. Conheça a classificação da sua mercadoria
A NCM é fundamental para entender o tratamento tarifário aplicável.
2. Calcule o custo total da operação
Não considere apenas o preço do fornecedor. Inclua impostos, frete, despesas portuárias, câmbio e demais custos.
3. Acompanhe mudanças tarifárias
Alterações em tarifas, quotas, acordos e medidas comerciais podem afetar decisões futuras.
4. Avalie diferentes fornecedores
Diversificar origens pode reduzir a dependência de uma única cadeia de fornecimento.
5. Analise oportunidades comerciais
Ex-tarifários, quotas e acordos podem representar alternativas importantes dependendo da operação.
6. Planeje antes do embarque
Quanto mais tarde uma mudança for identificada, menor será a capacidade de reação.
O comércio exterior está cada vez mais conectado às decisões econômicas e políticas tomadas ao redor do mundo.
Uma tarifa anunciada em Washington, uma mudança regulatória na Ásia ou uma alteração em um acordo comercial pode repercutir na cadeia de abastecimento de empresas brasileiras.
Por isso, importar de forma competitiva exige uma visão que vá além da negociação com o fornecedor.
É preciso olhar para origem, classificação, tributação, logística, câmbio, riscos e cenário internacional.
No fim, a pergunta não deve ser apenas:
“Quanto custa esse produto no exterior?”
Mas sim:
“Quanto essa mercadoria realmente custará para chegar ao meu negócio?”
As mudanças tarifárias de 2026 reforçam uma realidade que quem trabalha com importação conhece bem: o comércio exterior é dinâmico.
As condições de uma operação podem mudar antes mesmo de a mercadoria embarcar.
Por isso, acompanhar o cenário e contar com conhecimento especializado pode ajudar a identificar riscos e oportunidades com antecedência.
Na Sollis Trading, acreditamos que grandes operações começam muito antes de chegar ao porto.
Porque importar não é simplesmente comprar de outro país. É planejar cada etapa para transformar uma operação internacional em uma oportunidade de negócio.
Sollis Trading — conectando empresas, mercados e oportunidades no comércio exterior.